[AVISO: Esta leitura pode conter conteúdo que POSSA ser considerado ofensivo para algumas audiências. (A junção de dois “podes”). Recomendada para… Maiores de 14?]

Estávamos sentados em seu carro fazia alguns minutos. Ele havia começado a bolar um baseado enquanto eu observava a chuva lá fora. Abri um pouco da janela eletrônica do carro e soprei o ar frio.

Minha respiração formou uma pequena fumaça cinza, da exata tonalidade que eu sentia estar misturada com o azul profundo de meu coração. Estávamos juntos, estávamos sós, mas eu só teria metade do que gostaria de ter ali dentro.

Respirei fundo. Olhei de soslaio para sua figura, suas mãos agiam de forma hábil ao enrolar a erva na seda, faziam pequenos movimentos circulares que iam moldando o formato cilíndrico desejado. Suas mãos, seus dedos, a maconha. Cheguei a me perguntar qual eu queria sentir mais naquele momento. Eu tocava suas mãos com certa frequência, sempre que nos cumprimentávamos nós o fazíamos com um aperto diagonal de mãos acompanhado de uma saudação vocal.

“Oi Rô.”

“Oi Thi, sabe, eu tava com saudades de conversar contigo, não quer dar uma saída uma hora dessas? Sair conversando por aí, trocar umas carícias, eu te enchendo de beijos e-” Ah. Nunca falei isso. Só o “oi”. O “oi” eu falei. Fazia muitos meses que eu só falava o “oi”. Esses dias quase começamos a conversar, mas sua namorada chegou e interrompeu tudo, me virei pro meu canto e comecei a ler algum livro.

Enfim, voltando. Seus dedos. Na verdade não considero seus dedos particularmente bonitos nem nada, mas a ideia de tê-los me tocando, me explorando e me estimulando me era muito atraente. Sua boca. Pera, eu ia falar sobre a maconha. É, a maconha, objeto de luxúria e desejo, de viagens e possibilidades, de potência da percepção e aumento do esquecimento, da excitação e reflexão, do cansaço e da euforia, da fuga e da busca de mim mesmo. Essa sim era das minhas, essa sim me aceitava como eu sou, essa sim me explorava a vontade com todo direito e fascinação que eu merecia. Essa sim.

Sua boca. Voltei pra sua boca. Agora ele iria fechar o baseado, começava a colocar sua língua pra fora, levemente umedecida. Que língua. Aproximou-a da superfície da borda da seda, começou a encostar na mesma. Ai, por que não está encostando em mim? Por que não está me lambendo em todos os lugares que possa desejar? Ai, por que essa boca, por que essa língua, por que esses dedos, por que essa mão, por que essa admiração e fascinação com um cara tão, tão, tão… Tão ele. Não consigo menosprezá-lo, por mais idiota e chato que possa parecer. não consigo negar o quanto me atrai. O que foi que me chamou atenção há oito anos atrás?

Uma das primeiras pessoas que me aceitaram como eu era, uma das primeiras que pude reconhecer como bom amigo numa fase tão difícil. Minha primeira paixão do sexo masculino. Meu primeiro equívoco. Meu lindinho. Tão, tão, tão… nada meu.

Dá nada, não me importo.

Não muito.

Mesmo.

Sim.

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Este é um conto bem interessante de se reler pra mim. Foi um dos primeiros que escrevi desde que me vi escritor, experimentei e ousei em várias coisas com ele, que me eram muito novas, a própria escrita em primeira pessoa, visão de mundo própria do narrador, essa descrição mais sensorial, com detalhes de textura e teor sensual.

Espero que gostem. Vençam seus preconceitos e expandam seu pensar.

O mundo é inspiração. Deixe-se inspirar.

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