A cadência do texto foge de minha cabeça.
Tal absurdo nunca antes ocorrera.
Cadê a musicalidade de minhas letras?

Estou revisando um texto que, por acaso, aparentava ser ideal para botar algumas rimas. Aí o filho da puta começa a pedir rima pra tudo que é lado na revisão… Até que virou uma suruba infernal de rimas que amarrotaram minhas sinapses cerebrais. O que, claro, incluiu minhas capacidades de criação e leitura.

Um exemplo, a frase:

“A sílaba permeava o arrepio de seu pescoço até seu pé.”

Inventei agora, do nada, achei bonita. Excelente, linda frase.

Eu poderia continuá-la ou terminá-la com algo que fizesse sentido, como:

“Suscitava uma pulsação oriunda das tremidas inconsequentes de seu corpo. Exalava, ao ritmo contínuo dos movimentos de seu toque, um frenesi ímpar de sensações antes presentes apenas em filmes. Uma lambida imaginária percorria seu pescoço. Mais uma sílaba completava a palavra. A primeira foi SE. E SE realmente ocorresse? A segunda foi XO. XÔ pensamento, tu não és meu… Pare de me provocar. SEXO. As sílabas se juntaram e seu raciocínio não aguentou. Cedeu aos seus instintos e foi. Se masturbou.”

Olha. Gerou um texto, basicamente. E ficou bom. Muito bom.

Mas sabe o que tava acontecendo antes?

“A sílaba permeava o arrepio de seu pescoço até seu pé, suscitava uma pulsação… Só poderia ser chulé.”

Eu poderia estar no meio da escrita de um clássico da nova literatura brasileira, mas a rima veio e estragou tudo. Neste caso ficou até divertido, mas acredite, nesse texto que estou revisando… Ficou uma bela merda.

E pior, estragou minha leitura de outros textos. Direcionei minha atenção a trechos de outras obras que eu SEI que estavam muito boas quando as escrevi… E não consegui ler. Não encontrava o ritmo. Parecia que eu estava lendo uma sopa de letrinhas com palavras enormes e que não combinavam umas com as outras. Um emaranhado léxico que parecia complicado demais para ler.

E eu o havia escrito! E anteriormente fizera sentido! Imagine o absurdo.

Revisar este dito cujo primeiro havia transtornado meus pensamentos analíticos em um bueiro entupido, podre e fedido. Tudo que entope aos poucos começa a transbordar, meu cérebro já não conseguia aguentar.

Pirei.

Sempre gostei de rimas. Sempre foram divertidas. Amo-as.

E amo coisas líricas. Romantismo exagerado, algumas palavras de aparência mais erudita no meio do texto… O lirismo das palavras, a própria cadência da leitura mais literária. Tudo isso muito me atrai. Aquele baita texto que parece bonito só de ver e quando tu lê ele derrete na boca e te afaga a mente. Gosto tanto de ler quanto escrever dessa maneira.

E, erroneamente, às vezes a rima quer dar uma de “rainha da literatura” em minha cabeça. E nem sempre dá certo. Agora, realmente, não deu.

Escrevendo este texto (que você lê neste exato segundo) me curei desta crise horrível que estava me enlouquecendo. Estou curado. Consigo ler normalmente de novo. Graças à mim. A cura através do desabafo literário.

O problema, caro leitor.

É que eu ainda tenho que terminar de revisar aquilo. Ter que encará-lo, pela terceira vez. Ao lê-lo meu cérebro já “buga”, se confunde e perde todo o ritmo, vai de um lado ao outro e se espatifa com raiva no piso. Não posso mais deixar isso acontecer.

Vou fazê-lo, mas não hoje.

.

Querido Daniel Cousland de amanhã, que vai revisar aquele texto.

Que bom que eu não sou você.

Abraços e beijos.

Dica do dia para escritores em agonia:

Escreva outra coisa para atenuar a paranoia do texto que te amedronta. Depois volte para ele e dê um murro em sua cara.

Fi-na-li-ze-o.

 

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