Minha garganta se fechava à medida que eu terminava de morder uma massa adocicada. Os ossos de minha arcada dentária permaneciam estáticos, mas os músculos que os preenchiam comprimiam-se ao ponto de me causar dor. Meu nariz não parecia capaz de puxar ar o suficiente para me manter vivo. Meus olhos lacrimejaram de terror.

Maldita gula. Por que não comi uma maçã antes, para limpar a garganta? Aos poucos estou perdendo a visão, incerto se é meu cérebro desativando funções para poupar energia ou se o aperto da morte com eficiência se aproxima.

Meu coração para por um segundo, sinto que morri. Tusso e recupero o ar, surpreendo-me ao notar que estou vivo, mas ainda me sinto cego. A garganta agora se encontra estática, comprimida, mas parada. Seu tamanho não passa de um pequeno aro da circunferência de uma caneta, mal permitindo que algum ar entre em meus pulmões.

Mas ainda tenho comida na boca. Ainda falta mastigar. De olhos abertos ou fechados, não tenho certeza, só vejo o escuro. Tateio minha mesa em uma mistura de temor e certeza. Eu havia trazido uma garrafa de água? Meu cérebro aturdido não conseguia raciocinar nada além de instinto. Água. Eu precisava de água.

Minha mão passa pela borda emborrachada da mesa e encontra um primeiro objeto. Um grampeador. Largo-o e continuo a tatear com apressada sutileza. Um segundo, um calendário. O desespero toma conta de mim e meu braço se desloca com violência, empurrando um terceiro. Parecia de plástico. Era a garrafa?

Meu nariz me salva em um espirro. Uma imagem turva e lancinante aparece como uma tela no meu retomado campo de visão. A profundidade dos objetos me causa náuseas enquanto minha cabeça faz movimentos circulares na base de meu pescoço. As paredes de minha gengiva transbordam em saliva. Vai ser agora. O momento em que meu corpo decide se vivo ou se morro.

Meu estômago tomará a decisão. Vivencio o enegrecimento de meus olhos. As cores fogem aos poucos, absorvidas em um vendaval. A ventania que as suga se concentra em um redemoinho em meu cerne. Uma tempestade marítima conclui a gestação de um turbilhão que sobe, voltando ao início, voltando à garganta.

Minha respiração cessa por exatos quinze segundos. Neste espaço de tempo ejeto, bufo, lanço, cuspo e expeço secreção. A comida que eu ingeria há pouco é substituída por fragmentos de vômito grudados em meus dentes, gengiva e nariz.

Minha visão volta, meus olhos doem. Enxergo a garrafa caída, a água derramada. Esta se mistura ao vômito e sangue no tampo da mesa. Somados infiltram o teclado do computador. Já são oito da manhã. Mais um dia começa. Levanto-me, tonteio, caio no chão e me arrasto. Abandono a sala. Respiro em alívio. Estão todos atrasados.

Minha cabeça grudada ao chão dói e me recorda. O arrependimento mais que nunca me golpeia, me permeia e se demora. Sinto-me desolado. Esqueci. Hoje era feriado.


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