E com uma dedada meio arrependida e desajeitada eu morri. Como sei disso? Senti o que o humano sentiu. No milésimo de tempo em que, por reflexo, seu dedo se dirigia a mim, se arrependeu. Claramente não ao bastante, visto que morri, mas ainda assim, tinha algum arrependimento ali.

Eu poderia dizer que sou, desculpa, era uma formiga especial, a única capaz de pensar, raciocinar, narrar sua própria história. Mas não tenho porque mentir, ainda mais mortinha, esmagada do jeito que estou. Somos todas assim. Seres pensantes. Filósofas. Verossímeis. Egocêntricas não, isso não temos em comum com vocês. Possuímos alguma forma de ego, mas não se compara a massa de energia escura que emana da sua laia.

Entendemos de ciência também e, como você bem sabe, seria impossível eu falar da maneira que falo com o tamanho de nosso cérebro. Bom, nosso “cérebro físico”, o que vocês conhecem. Nosso raciocínio funciona através de sinapses energéticas que ocorrem do lado de fora do corpo. Gostava de chamar isto de Consciência Ambulante. Meu formigueiro se referia à ela como “Sistema Cerebral de Raciocínio Lógico Externo”, mas sempre tive preguiça de pronunciar tudo. Alguns a citavam pela sigla, o que conseguia soar ainda pior. Então sim, fui obrigada a criar meu próprio termo.

Nossa. Não acredito que eu fui uma rã na vida passada.

Distraí-me. Acontece. São muitos fluxos de pensamento diferentes que passam em minha “mente” ou o que quer que isso seja que nós temos depois da morte. Bom, que formigas tem depois da morte, humanos não devem ter nada tão especial. Afinal, tudo fica dentro do cérebro, nada do lado de fora.

É óbvio que vocês não são ocos, mas da maneira que agem com a natureza poderiam muito bem ser. Tudo bem que vocês parecem ter um aspirador de pó que suga e (con)some com tudo que se aproxima e, claramente, isso não é igual a um vazio sem nada… Redundante, eu sei. E ah, ainda por cima é um aspirador bem grande e de duração prolongada, robusto. Com infelicidade digo, é deveras similar a um buraco negro que só pega e nada entrega.

Ao menos um aspirador de pó de verdade devolve isso: um saquinho de pó.

Quando vocês morrem vocês mesmos viram pó… Acho que já é alguma coisa.

Ah, pelo jeito formiga renasce rápido.

Hein? É sorteio? Que eu não seja humano, por favor.

NÃO SEREI HUMANO! SEREI UMA, uma vaca? Tá ótimo.

Ah não… Pera.

Vocês comem vaca.

Vou ficar quieta.

Moo.


Este texto surgiu porque… Eu matei uma formiga. E foi mais ou menos assim.

Não me orgulho disso.

Até a próxima (postagem, não morte de formiga)! :)

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